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Mentes Férteis
3.06.2005
 
A gestação foi longa, o parto dificílimo, mas agora ele está aí, um bebezão grande e saudável que é esse post, cujo nome foi escolhido com a ajuda do Digão.

Paixão sufocada, paixão sufocante

Quando Fábio se mudou para aquele condomínio de alta classe ele estava receoso, não sabia se seria aceito por aqueles "playboyzinhos folgados". Não era medo de ser discriminado, se fosse assim era só descer o cacete e pronto. Seu real temor era ser ostracizado, não se importava em ser odiado, mas ser ignorado era inaceitável.
Em seu primeiro contato com seus novos vizinhos viu todas suas previsões serem contrariadas. Nada de patricinhas metidas e olhares esnobes de playboyzinhos se achando os donos do mundo. Pelo contrário, ele foi recebido muito bem e em poucos dias se enturmou.
Ainda no primeiro dia em que começou a se sociabilizar com os condôminos se deparou com uma garota que lhe chamou a atenção. A primeira coisa que reparou nela foi a boca, pequena, de lábios finos, depois seus olhos castanhos claros que transmitiam uma alegria silenciosa, uma sensação de conforto. Era uma garota delicada, que ele teve vontade de acolher e proteger, sempre teve um fraco por garotas assim. Foi aí então que reparou num pequeno, porém significativo, detalhe: uma reluzente e grossa aliança em seu dedo. Sua primeira boa surpresa havia se tornado sua primeira grande decepção.
Ela se chamava Lúcia, namorada de Diego, com o qual Fábio logo estabeleceu uma boa relação de amizade.
Fábio decidiu nunca “investir” em Lúcia, não por evitar confusão ou achar que não teria resultado nenhum, pelo contrário, tinha medo de um resultado positivo. Sua índole inabalável e sua amizade com Diego nunca perdoariam o desiludido rapaz por destruir um romance em benefício próprio, principalmente o daquele casal.
Na primeira festa em que foi naquele condomínio, ao ver tal casal se beijando, se abraçando e se “chamegando”, Fábio tomou uma atitude: Primeiro na caipirinha (atitude era a marca da pinga), depois com refrigerante e, por último, pura. Sentou-se num sofá e de lá não se levantou mais. Que porre! Por causa de seu estado perdeu até a chance de ficar com Tatiana, sonho de consumo de todo o condomínio, gostosa era sua melhor definição. Ela estava praticamente pulando em seu colo, falando com ele a menos de um centímetro de sua boca, mas ele estava tão lesado que quase não conseguia falar.
No dia seguinte, quando acordou, lá pelas duas horas da tarde, pôs-se a refletir sobre o porre do dia anterior. Por causa dele deixou de embarcar em uma das melhores aventuras sexuais que poderia ter tido na vida. Decidiu que tiraria Lúcia da cabeça, aproveitou o mês de férias que passaria em outro estado, na casa de sua avó, para organizar seus pensamentos.
Durante esse mês ficou com algumas garotas na cidade onde sua avó morava, se afastou das preocupações, traçou metas para quando voltasse para sua cidade e realmente tirou Lúcia da cabeça. Seu objetivo agora era conquistar Carla. Ela reunia a delicadeza da qual Fábio tanto gostava com formas instintiva e biologicamente belas, além de que ela tinha comportamento e gostos iguais aos dele.
Mas como a prática nunca é equivalente a teoria, quando foi falar com Carla pela primeira vez depois que voltou de sua viagem, no momento em que ia “desferir seu primeiro golpe” ele hesitou, não estava sendo sincero, pretendia apenas usá-la como forma de esquecer Lúcia.
Não conseguia entender porque ainda a desejava. Mas como tudo tinha um porquê, decidiu encontrá-lo. Passou a ficar sozinho o máximo de tempo possível, analisando o que se passava em seu coração.
Após mais ou menos um mês nesta condição, chegou a uma conclusão, uma conclusão repugnante, que o deixou com nojo de si mesmo.
Do mesmo modo que o gosto da maioria dos homens por mulheres “cavalonas” é ditado por instintos de sobrevivência, seu gosto por garotas de aparência delicada (e nesse quesito Lúcia era a top das tops) era ditado por sua personalidade egocêntrica, sua vontade de defendê-las apenas para ser visto como um herói de coração grande.
Não via mal nenhum em conciliar os propósitos de seu consciente, seu subconsciente, seu inconsciente de suas parceiras, por mais egoístas que fossem, afinal não faziam mal a ninguém. Mas naquele caso era diferente, ele não poderia se permitir ferir os sentimentos de alguém apenas para inflar seu ego inchado.
Sua única alternativa era resistir aos seus desejos, controlar seus sentimentos dia após e dia, e foi exatamente isto que passou a fazer.
A vida seguiu-se normalmente até que um dia Fábio teve uma daquelas manhãs que o deixava de mau humor durante o dia inteiro, nestes dias tinha vontade de, no mínimo, bater em alguém sem motivo nenhum, vontade de liberar toda sua selvageria. Ele estava como um barril de pólvora, só esperando por uma fagulha para explodir. E a fagulha veio.
Fábio estava sentado em uma mureta perto da portaria tentando recuperar seu humor ouvindo o silêncio. Mas foi o silêncio que o enfureceu. Lúcia estava saindo no mesmo momento em que seu namorado chegava. Encontram-se e beijaram-se, e o silêncio permitiu à quem estava por perto, leia-se Fábio, ouvir o som de suas línguas se acariciando. Fábio ainda tentou por alguns segundos controlar-se como fazia todo dia, mas neste dia, enfraquecido por seu mau humor, ele não conseguiu. Toda sua mágoa e ressentimento por Lúcia vieram à tona, mesmo sabendo que ela não tinha culpa nenhuma pelo o que ele sentia, que a culpa era dele próprio.
Correu na direção dela, já sem nenhuma capacidade de raciocinar, agarrou-a pelo pescoço e começou a apertar-lo. Diego, que nunca soubera das coisas que passavam pelo coração de seu amigo ficou petrificado por alguns segundos, não conseguia entender o que estava acontecendo. Assim que se recuperou foi ao socorro de Lúcia. Nisso, Fábio viu o desespero nos olhos de Diego e recuperou sua consciência, largou o pescoço de Lúcia, seus olhos se encheram de lágrimas e ele correu como nunca havia corrido antes.
Ele havia corrido sem parar até chegar aos limites da cidade, sentia-se desesperado, mas de certa forma aliviado, já não guardava aquele rancor que tanto mal o fazia. Além disso, sentia orgulho, pois durante todo aquele tempo em momento algum pensou em satisfazer seus desejos e, por conseqüência, ferir os sentimentos e a confiança de Diego.
Ninguém nunca mais o viu entrar naquele condomínio. Ele se mudou para a casa da avó, seus pais levaram dinheiro para o ônibus e tudo que lhe pertencia até a rodoviária. Ele se recusou a entrar em seu condomínio uma ultima vez.
Sentia-se satisfeito em seu novo lar. Lá ninguém sabia de seu passado, lá não colocaria mais ninguém em risco e, o principal, lá estaria sendo punido por sua fraqueza, nunca mais pisaria em sua cidade natal, lugar onde estavam todos seus amigos e lembranças.

PS: Atualizei os links. Se houver alguma falha é só deixar um aviso nos comentários que eu concerto.
 

MERDA SECA
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